Um novelão completo, A Próxima Vítima mostra que suspense e mistério com melodrama, consegue ser uma mistura explosiva!

 


Poucas novelas conseguem unir o apelo popular com uma trama bem arquitetada e um suspense que prende do primeiro ao último capítulo. A Próxima Vítima é uma dessas raridades que se sustentam não apenas pelo mistério bem construído, mas também por toda uma atmosfera que mistura elementos de novela tradicional com uma pegada policial que, mesmo com alguns excessos e barrigas ao longo do caminho, ainda assim consegue se destacar como um dos melhores folhetins já feitos.

O impacto dessa novela é algo que se percebe desde os primeiros capítulos. O clima de tensão instaurado a partir da lista de mortes baseada nos signos do horóscopo chinês, o Opala preto circulando pelas ruas, e os assassinatos acontecendo com requintes de cena de filme de suspense dos anos 90, tudo isso fazia da experiência de assistir algo que ia muito além do habitual. Era uma novela que se levava a sério no mistério que propunha, e conseguiu segurar o público por 203 capítulos (mesmo com uma certa barriga), com uma fórmula que podia parecer repetitiva, mas sempre surpreendia com uma nova pista, uma nova morte, um novo detalhe que reacendia o interesse. E o que é melhor: até quem já sabia quem era o assassino conseguia se manter vidrado, justamente porque o que importava não era apenas o “quem”, mas o “por que” e o “como”.


Sílvio de Abreu foi muito feliz na criação de uma teia em que praticamente todo mundo podia ser culpado. E ao longo da novela, os personagens realmente parecem esconder algo, o que torna a experiência ainda mais instigante. A revelação final, com o Adalberto sendo desmascarado, é impactante, vibrante, e talvez uma das cenas mais emblemáticas da dramaturgia brasileira. A atuação do Cecil Thiré no momento em que ele deixa a máscara cair é de arrepiar. É justamente aí que o final oficial se mostra tão memorável: não apenas pelo roteiro, mas pela maneira como foi conduzido, filmado, interpretado. E por incrível que pareça, existe um final alternativo, que, apesar de mais coerente com várias pistas deixadas ao longo da novela, tem uma condução fria e menos envolvente. A revelação feita na delegacia não tem o mesmo peso dramático da cena na mansão dos Ferreto. E embora o Ulisses como assassino faça sentido dentro da lógica da vingança, a execução da cena deixa a desejar — além de forçar algumas conexões que soam mais estranhas do que reveladoras. Ainda assim, é um final interessante, que vale como curiosidade e reforça a complexidade da história.


É inegável que o núcleo da família Ferreto foi quem carregou a novela nas costas. Entre tantos personagens e núcleos paralelos que variavam entre o suportável e o insuportável, era sempre esse grupo que sustentava o interesse da trama. Carmela , vivida por Yoná Magalhães, foi puro carisma e ironia, com sua elegância debochada e uma trajetória que terminou de forma triunfal: rica, plena e ao lado do Adriano. 

Filomena, interpretada magistralmente por Aracy Balabanian, talvez tenha entregado uma das performances mais densas da novela — uma mulher amarga, autoritária, convencida de que suas ações eram justificadas por um suposto bem maior, colhendo no final a solidão que ela mesma plantou ao longo da vida. É, sem dúvida, uma das grandes personagens da carreira da Aracy, e uma vilã “acidental” que nunca foi caricata. 

E Isabela, vivida por Cláudia Ohana, foi simplesmente uma das vilãs mais lembradas da dramaturgia: dissimulada, inteligente, sedutora, fria — até que, na reta final, se tornou também burra e repetitiva, chegando a irritar com algumas atitudes forçadas. Mas sua presença foi essencial para o sucesso da novela e, mesmo com esses tropeços finais, Cláudia entregou um desempenho marcante, que até hoje é lembrado como um dos maiores papéis da sua carreira. 

E claro que não dá pra deixar de citar uma das cenas mais clássicas (e também mais problemáticas) da novela: o momento em que Marcelo (José Wilker) corta o rosto de Isabela com uma faca ao descobrir a traição dela com o amante. A cena é chocante, violenta e virou símbolo da virada definitiva da personagem como vilã. Repercutiu muito na época e, apesar do impacto dramático, hoje é impossível assistir sem se incomodar — tanto pelo nível da agressividade quanto pela forma como foi naturalizada dentro da narrativa. Mas é anos 90 né.


E impossível falar de A Próxima Vítima sem destacar aquela que foi a melhor personagem da novela: Romana Ferreto, interpretada com uma força absurda por Rosamaria Murtinho. É curioso (e injusto) que Romana só tenha sido inserida na história a partir do capítulo 130 — ou seja, no terço final da novela — e ainda assim tenha conseguido marcar tanto. Foram apenas 60 capítulos de participação, mas o suficiente para deixar sua presença cravada como uma das mais impactantes. Sua chegada chacoalhou completamente a dinâmica da família Ferreto, e sua atuação foi precisa, elegante, cortante quando precisava ser, e cheia de nuances. Uma pena que boa parte de suas cenas tenha sido ao lado do robótico Alexandre Borges, que vivia seu par, Bruno. Embora tenha melhorado como ator com o tempo, naquela época Borges já mostrava suas limitações — e contracenar com uma potência como Rosamaria só evidenciava isso. Ainda assim, Romana brilhou intensamente, mesmo com pouco tempo de tela, e é uma dessas personagens que provam como o talento de uma atriz e uma boa construção de personagem podem fazer muito em pouco tempo.

Outra personagem que merece menção é Irene, vivida por Vivianne Pasmanter, que conquistou espaço ao longo da trama como uma espécie de estudante de Direito “detetive amadora”. Foi ela quem, com curiosidade e inteligência, começou a conectar os assassinatos e levantar a hipótese de que todos estavam ligados — muito antes da polícia sequer considerar essa possibilidade. Com seu jeitinho questionador, Irene se tornou peça-chave na construção do suspense, e seu papel foi fundamental para que o público começasse a montar o quebra-cabeça da trama. Mesmo sem estar tecnicamente no centro da narrativa, roubou bastante destaque com sua atuação certeira e seu envolvimento crescente na investigação.

Se a trama policial foi brilhante, o mesmo não pode ser dito de várias das tramas paralelas. É evidente que, para sustentar tantos capítulos, era necessário rechear o enredo com histórias de amor, conflitos familiares, dramas pessoais. Mas há um momento em que isso passa do limite. Muitos desses núcleos foram simplesmente insuportáveis, com personagens mal resolvidos, relações forçadas e casais que pareciam existir apenas para ocupar tempo de tela. O triângulo (ou melhor, quadrado) entre An (Susana Vieira), Juca (Tony Ramos), Marcelo (José Wilker) e Helena (Natália do Vale), na qual Juca e Ana eram considerados os mocinhos da trama, é um bom exemplo de como repetir uma dinâmica exaustiva até a exaustão pode cansar o público. A ponto de, num dado momento, a única solução desejada fosse que todos ficassem sozinhos. Em uma semana, Juca ficava com Helena, depois tentava algo com a Ana. Na semana seguinte, voltava com Helena, pra depois largar tudo e se casar com Ana, e Ana sempre era chifrada pelo Marcelo. ERA UM INFERNO! Nunca vi cara tão mal decidido quanto ele. E Marcelo era um belo lixo hipócrita e machista.

Em outro extremo, subtramas como a de Carina (Deborah Secco) e Tonico (Selton Mello), que envolvem uma adolescente abrindo mão de sua vida profissional de modelo para casar com um homem machista, hoje soariam até problemáticas — e de fato são. Assim como Rosângela (Isabel Fillardis), que simplesmente perdoa o ex que passou a novela inteira sendo agressivo, preconceituoso e imaturo, além de trair ela com Carla (Mila Moreira). São decisões difíceis de engolir, ainda mais com o distanciamento do tempo.


Mas se há algo que a novela acerta de forma admirável é no tratamento de certos temas que, até hoje, são mal explorados na teledramaturgia. A família negra de classe média é um marco importante e necessário, e o romance entre Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes), é tratado com muita sensibilidade — especialmente considerando que estamos falando de uma novela de 1995. Também vale lembrar o arco de Cacá (Yoná Magalhães) e Adriano (Lugui Palhares), que traz o tema da diferença de idade com leveza, além de se tornarem o melhor casal da novela. A química era absurda demais. São temas que, curiosamente, nem sempre recebem a mesma atenção em novelas mais recentes, e que aqui são tratados com respeito e profundidade.

Ainda assim, é impossível não notar os problemas de ritmo. A novela sofre de barriga em vários momentos. Chega a um ponto, ali pelo capítulo 120-140, em que a repetição de situações e a falta de avanço nas investigações tornam o andamento arrastado. Chegou a um assassinato demorar mais de 45 capítulos pra acontecer. Uma trama de ASSASSINATO, e o fator principalmente não acontecia. E isso se agrava com a insistência em subtramas que não levam a lugar nenhum, com personagens que poderiam ser simplesmente cortados sem afetar em nada a trama principal. O núcleo da Quitéria (Vera Holtz), é uma exceção, uma dessas histórias que vão crescendo com o tempo e acabam conquistando, mas a maioria dos núcleos paralelos só atrapalha.  O pior de todos foi o núcleo do Zé Bolacha (Lima Duarte), completamente insuportável tanto ele quanto a família.


Mesmo com todos os seus defeitos, A Próxima Vítima é uma novela que vale muito a pena. Talvez não seja ideal para maratonar sem filtros, porque exige paciência com alguns excessos. Mas sua força está justamente na proposta ousada: uma novela com alma de thriller, que mexe com o emocional e com o racional do espectador. O texto é bem construído, o suspense é muito bem conduzido, e o desfecho é um dos mais memoráveis que já vi. 

É o tipo de novela que deixa saudade, que termina e você continua pensando nos personagens, nas mortes, nas revelações. Uma novela que não tem medo de ser intensa, e que entrega exatamente o que promete: uma história envolvente, misteriosa, bem escrita e inesquecível. Vai marcar saudades na minha casa!


NOTA 8/10

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